sábado, 30 de janeiro de 2021

ENEM 2020 E A FILOSOFIA

 

Enem 2020 e a Filosofia

 






         No último fim de semana houve a prova do Exame Nacional do Ensino Médio e mais uma vez provou a grande importância da Filosofia nas escolas, bem como de Sociologia e mesmo Direito. Quanto ao Direito, não se vê uma disciplina específica na grade, o que dificulta uma abordagem de temas que vêm caindo em exames, e que deveriam ser de conhecimento da população em formação escolar. Sobre a redação, já comentamos em artigo anterior o que foi exigido. Fato é que apesar de parte de população ser contra a reflexão em escolas, comentando se tratar de puro comunismo, resta que ainda é muito importante se dedicar a essas áreas, uma vez exigidas no exame, o que decide a vida universitária e profissional de muitos jovens e adultos. Em suma, prova o Enem que todo o estudo é aproveitável, e que para contrariar os opositores da escola brasileira, não houve questão sobre Marx na área de humanas.


         Uma primeira questão que se apresentou no caderno em parte de ciências humanas foi a respeito da Declaração dos direitos do homem, de 1789. O tema jurídico, bem como de cidadania vem sendo constantemente exigido em bancas e provas. Nessa questão falava dos representantes do povo francês como causa de desprezo pelos direitos do homem. Na questão a resposta correta será a paridade de tratamento jurídico, uma vez uma reação ao desrespeito de direitos humanos. O tema vem da influência da filosofia iluminista, que tanto defendeu a igualdade perante a lei, hoje presente em Constituições. Também caiu o pensador Montaigne, que já foi inclusive tema de uma série de TV do filósofo Alain de Botton, onde mostrava um filósofo que tratava de temas do cotidiano e de sua vida pessoal e íntima, essa obra chamada de Ensaios. Logo a resposta da questão era o subjetivo e ensaio. Noutra questão foram colocados textos de Fernando Pessoa e Merleau-Ponty, e ambos tratavam da abordagem da realidade de acordo com as sensações e o corpo, apenas mudando em Fernando Pessoa de modo mais empirista, e de Merleau-Ponti com a sua fenomenologia. Mas ambos tratavam do corpo, que era a resposta. Uma questão difícil foi a sobre solipsismo, onde se citou uma parte de livro e se mostrou uma doutrina que nega a realidade, pois nada existiria fora do mental. Em outro questionamento, se perguntou sobre filósofo David Hume, para quem de antemão soubesse sobre o empirismo, responderia facilmente a questão, onde se cita objetos que não seriam sem a experiência. Interessante é que caiu A Democracia na América, de Tocqueville, onde a resposta seria a referente aos valores burgueses, haja vista uma aparência liberal, ou mesmo calvinista-protestante do contexto do livro, que respeita a religião e a propriedade, em tema de sucessão. Já outra questão tratou de função social de propriedade, que é uma visão mais atual, e que mostrava um uso de maior utilidade a terra, com a necessidade de reforma agrária. Voltando a questões mais clássicas de provas, se perguntou sobre Aristóteles, de modo a se citar a obra Política, obra que em grande parte trata de ética e justiça, e nesse sentido foi a resposta, bem como a eudaimonia. Uma busca de equilíbrio e bem comum da comunidade. No mais além de filosofia e sociologia, se questionou sobre direitos, no caso numa questão da Declaração de Salamanca, e outra em código de Hamurabi, onde se tratava e elencar tipos penais no referido código. Na Declaração de Salamanca se tratava de direitos das crianças, e de pluralidade de sujeitos.


         Ao se ler o Enem desse ano, percebemos que as questões de pluralidade, igualdade, direitos humanos, democracia e tantas outras vêm sempre sendo destaque, refletindo o que há na nossa Constituição de 1988, bem como em diversas escolas filosóficas. O aluno deve estar situado no mundo que o rodeia, tendo um perfil cidadão e consciência do mundo que o envolve, analisando de forma crítica essa realidade. Não se trata de comunismo, direita ou esquerda, mas diversos conhecimentos e competências que esse aluno deve demonstrar de forma ao jovem ou adulto encontrar seu próximo passo no mundo universitário e profissional, ou mesmo técnico ou qualquer outro passo que venha a dar em seguida, na sua vida. A prova foi bem elaborada e reflete um bom nível de exigência. No caso da filosofia, se percebe mais uma vez a grande importância da disciplina nas escolas, e a diferença que faz na nota final, uma vez o número de questões presente, sejam diretamente, ou indiretamente, como na redação.



Mariano Soltys, filósofo e advogado       

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

TEMA DE REDAÇÃO DE ENEM 2020-21

 

Tema de redação do ENEM






O tema da redação do ENEM desse ano foi em relação a estigma das doenças mentais na sociedade brasileira. Esse tema demonstra grande relevância, uma vez o aumento de depressão nesse ano de vírus e quarentena. Também outros transtornos poderiam ser citados, bem como a situação da psicologia e psiquiatria. O aluno poderia trabalhar de forma crítica com o assunto, usar literatura brasileira, ou trazer alguma informação de modo dissertativo, a fim de obter a nota. Um detalhe interessante é que se deve respeitar os direitos humanos para obter nota também, em critério de correção. Com a cultura cada vez menos humanista que assola os jovens, via doutrinas extremistas de internet, alguém deve ter escrito sobre o tema da doença mental de forma equivocada, haja vista essa influência, e perdido nota. O Brasil carrega ainda na literatura antiga termos como “retardado” dentre outros, o que mostra um estigma forte, e ainda há uma cultura de internação ou manicômio, o que na prática também é algo ultrapassado. A doença mental tem de conviver socialmente, se adaptar e viver plenamente, com seus direitos e possibilidades. Um pensador que poderia ser usado pelo aluno é Michel Foucault, bem como outros, entre Freud, Jung, Adler e mesmo outros que tratam do tema. Um bom autor também seria Erasmo de Rotterdam. Fato é que informação quebra o preconceito e estigma. Depressão é coisa séria, não é frescura. Síndrome do pânico não é fingimento. Esquizofrenia não é mera possessão demoníaca. Transtorno bipolar não é mero recalque. Isso se dá tanto em matéria de doenças mentais, como de qualquer coisa. A diferença e diversidade humana merecem o respeito e amor. Na redação o aluno deveria compreender esse aspecto, para depois dissertar da melhor maneira, de forma reflexiva e crítica, respeitando a democracia, a dignidade e os objetivos para se chegar a uma sociedade mais igualitária.

Mariano Soltys, filósofo e advogado

sábado, 9 de novembro de 2019

A Filosofia no ENEM 2019


A Filosofia no ENEM 2019



     

       No último Domingo presenciamos a realização do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, feito em território nacional, de modo que se noticiou muitos estudantes que perderam o horário, ou que por motivos variados não conseguiram prestar o exame, ou até quem mesmo na oração acalorada esqueceu-se da pontualidade. O governo queria um exame sem a questão ideológica, e ao que se esperou do ENEM, observou-se que mesmo assim o mesmo manteve a qualidade da prova. Esperava-se que a filosofia não estivesse muito em destaque, mas ao se ler, percebe-se que caiu sim muita questão de filosofia, até mais que dez, além de destaque para a arte e cultura, que também figuravam grandes protagonistas de primeiro dia de prova. Dentre os filósofos tratados, estavam Jackes Derrida, Abbagnano, Francis Bacon, Agostinho de Hipona, Eric Hobsbawm, Foucault, Descartes, Maquiavel, Newton, Hannah Arendt, Pierre Lévy,  Kant, Adam Smith etc. 





                          Da leitura da prova, se notou o grande destaque para a arte e cultura, com obras de Picasso, Jackson Pollock, Hilda Hilst, religiões africanas, Jacques Le Goof sobre a Idade Média etc. Também a ciência oficial se manteve intocável, com Newton e sua maçã, Marcelo Gleiser etc, além de grande enfoque com a cultura atual, contextualizando temas como redes sociais, informática, distúrbios alimentares, etc. Ademais, se destacaram as questões sobre cidadania, direitos humanos, democracia, direitos sociais, estatuto do idoso, de modo que o aluno teria de mostrar seu perfil cidadão e consciente de seus direitos mais básicos e essenciais. Mas da filosofia, a primeira pergunta parecia ser sobre a alteridade, numa alusão a relação com o outro e diferenças (questão 46 de caderno amarelo). Usou-se o dicionário de filosofia de Abbagnano numa questão sobre direitos. Questões sobre Maquiavel (87), da idealidade da moral, e de Descartes (89), sobre o pensamento racional.  De Kant sobre a moral (70). Bastava-se conhecer o básico desses pensadores, suas correntes de pensamento para se responder tranquilamente. De Santo Agostinho caiu uma sobre livre-arbítrio, ou da limitação da liberdade do homem frente ao pecado. Sobre Foulcault (84), em tema incomum ele tratou de um aspecto de regras, sendo a resposta o tema legal.  E assim com outros pensadores. 





A prova foi bem elaborada e manteve a boa exigência de conhecimentos do aluno, não perdendo a ótica científica, cidadã, democrática e contextualizada do estudante, de modo que vai além do simples decorar ou questionar a ciência. Não se viu uma questão sobre “Terra plana” na prova, o que seria mais de ideologia ligada ao governo, ou também com enfoque demasiado fundamentalista cristão, tendo apenas uma questão sobre história da Igreja. No mais, a prova do ENEM respeitou a finalidade para que se destina, e mostrou que a filosofia ainda vive, e que não se pode retirar sua importância dos estudos, seja em nível médio ou acadêmico. Os temas exigiram um enfoque mais crítico e profundo, o que se pode fazer com a filosofia, não sendo possível igual pensar sem ela. Muito do que caiu já tratamos em nossos artigos.
Mariano Soltys, advogado e filósofo


Questão 15 caderno amarelo


Comentário
Pierre Lévy é um pensador contemporâneo que trata de tecnologia da informação e nossa relação com tal. Diferente do que se pensa da filosofia, a tecnologia sempre foi também tema da reflexão. O próprio enunciado da questão a responde, uma vez que a contribuição de pessoas ou usuários é essencial para as novas tecnologias, onde se diz que “jamais dispensará a inteligência pessoal”. Resposta C.




Questão 19
Comentário: Aqui um pouco de conhecimento ou vocabulário auxiliaria responder a questão. Como se trata de uma carta de um jogo ou super trunfo, se pode já de cara relacionar ao elemento lúdico, que foi usado para relacionar a sua biografia. Sendo a resposta correta a letra C.


Questão 46


Comentário: Aqui parece ser o centro do ensino de Derrida, mas em especial a relação com o outro-eu, com o outro, com a relação com o ser-fora-de-si etc. Logo o tema é a alteridade. Logo a resposta é a letra C.


Questão 47


Comentário: Aqui nesse dicionário de filosofia extenso, acaba-se Poe encontrar grandes ensinos. Lembro que foi um dos primeiros dicionários mais extensos que conheci de filosofia. Abbagnano é marcante. Nessa questão se fala de direito, em um sentido mais iluminista ou contratual, de contrato social, e de uma ética que é respeitar a liberdade do outro ao exercer sua liberdade.   Logo o direito é um tema da sociedade, social de relação entre pessoas. Então a resposta é a letra B.





Questão 58


Comentário: Aqui se faz um paralelo entre o filósofo e economista Adam Smith e Anderson, de modo que fica o livre mercado, ou concorrência, em paralelo aos monopólios, tendo a letra B como resposta. Smith seria então um liberal e já numa noção básica podendo levar o aluno a resposta correta. Logo a interferência estatal ou de leis seria restritiva, para Smith.




Questão 64


Comentário: A questão do livre-arbítrio em Santo Agostinho se refere a um tema ético e moral, mesmo que se trate do pecado e da ética cristã, da patrística. Logo a resposta B seria a mais óbvia e as outras não teriam qualquer nexo, apesar de tratarem de temas cristãos ou religiosos. Em relação a Deus a postura moral do homem é insuficiência, e na doutrina da graça apenas a fé em Jesus Cristo renderia a salvação. A liberdade foi dada ao homem para crer ou não crer, e em Agostinho, também para saber para crer.  A escolha do homem ainda estaria limitada nesse livre-arbítrio em relação a Deus.




Questão 70


Comentário: Aqui se pode gerar uma grande confusão para quem conhece Kant. Uma primeira impressão seria a da epistemologia dele, que levaria ao “a priori”, ou aprioridade do juízo, mas não trata o texto desse tema. Aqui se fala da moral, e da norma interior. O paralelo foi com uma fenomenologia, o fenômeno do mundo, sendo a resposta certa a letra E. Basta se lembrar que para Kant essa norma deveria ser por dever, e racional, e não meramente por uma finalidade como se chegar ao céu ou paraíso.





Questão 84


Comentário: Aqui se mostra uma questão um tanto sociológica no modo de ver, de interações sociais como fator referencial. Apesar de Foulcault ser da área da psicanálise, da sexualidade, de prisões, corpo etc, e também parecer um tema legal, o tema da questão são as interações sociais e esse aspecto de contingência, focando a letra C como resposta.





Questão 85



Comentário: Para o método científico, e quando vemos o pensador Francis bacon, pensamos de um dos inícios do método científico, junto com Newton etc, e desse modo ele trata aqui do espaço físico, e não de infalibilidade, uma vez que começa por hipóteses que se descartam, logo a ciência é falível, sendo um de seus aspectos esse. O texto II confirma esse aspecto espacial, sendo a letra A, a resposta.





Questão 86


Comentário: Hannah Arendt criou na época uma polêmica com os judeus, ao afirmar que nazistas apenas seguiam leis, mesmo ela sendo judia. Logo a obra dela tratava sobre a segregação racial que ocorreu na Alemanha nacional-socialista, entre arianos e judeus, fundada na teoria da eugenia, logo em fundamentos biológicos da época, ou biopolíticos, pois se referia a terceiro reich, ou império. A letra fica D como resposta.



Questão 87


Comentário: Aqui se mostra um pouco da moral ou amoral de Maquiavel, onde se trata do tema de meios que justificam fins, ou mentir para um bem maior ou político. A letra da resposta fica A, e para quem leu e conhece Maquiavel vê essa separação entre o real da moral e o ideal, em se tratando de política. Numa moral prática e não mais pautada em algo fora da força ou virtu (de virtude).






Questão 89


Comentário. Aqui ao e ler Descartes, se pode pensar desde logo em racionalismo, numa visão mecânica e objetiva de mundo. O texto II confirma essa cosmovisão e nos leva a numa leitura concentrada e focada, a resposta pelo enunciado. Letra A.


Imagens de site objetivo (https://www.curso-objetivo.br/vestibular/resolucao_comentada/enem.asp) , mas aqui com comentários meus.